UM DOS PRINCIPAIS indicadores do final das férias é o reencontro com uma pilha de mensagens recebidas durante o período em que se esteve ausente. Rever e arrumar a comunicação interrompida sempre trouxe uma sensação acolhedora de importância, reverência e organização. Até porque o trabalho não era muito, e costumava ser uma boa alternativa à tediosa desarrumação das malas.

As tecnologias digitais desmaterializaram a informação e, nesse processo, a vêm tornando inadministrável. Volumes de correspondência que não seriam recebidos em décadas são agora acumulados em horas, a ponto de se tornarem uma das principais atividades profissionais. Quem nunca terminou um final de semana debruçado sobre seu notebook, organizando uma cornucópia de e-mails? Quem nunca começou um dia disposto a erradicar a caixa de entrada, só para descobrir, bem depois da hora do almoço, que a tarefa era impraticável?

Não é preciso voltar muito no tempo para lembrar da época em que era uma alegria receber uma mensagem, tema até de comédia romântica nos anos dourados do fim do século passado. Hoje, que até startups e videogames são transformados em filmes, as histórias em torno do e-mail e seus correlatos estão mais para o drama, o humor negro ou a piada sem graça.

Boa parte dessa insatisfação não vem das mensagens em si, mas de seu teor. A maioria delas -como a maioria da comunicação no ambiente de trabalho- é inútil, repetitiva ou indesejada. Mesmo assim precisa ser lida, respondida, copiada, reencaminhada, identificada, classificada, filtrada. Nesse sistema burocrático, tudo precisa ser guardado porque pode se transformar em documento legal. Quando toda conversa pode ser relevante, praticamente nenhuma o é.

O resultado é que há cada vez menos paciência para se ler mensagens, e cada vez mais filtros para bloqueá-las. Já que confrontar diretamente seus emissores é tão impossível quanto ignorá-las por completo, a única forma de liberdade e vingança contra essa opressão parece ser empilhar a correspondência em algum canto, guardando-a como se faz com velhos recibos e balancetes contábeis, para uma eventual e improvável consulta posterior.

Assim, Gbytes são ocupados por cópias de conversas profissionais, avisos de contatos em redes sociais, newsletters, mensagens de grupos de discussão, notificações variadas, comprovantes e confirmações, lembretes de calendários, malas diretas comerciais e tantos outros.

Na disputa entre a criatividade dos emissores, a resposta dos firewalls e sistemas anti-spam e a sobrecarga de seus usuários, o sistema de e-mail acabou perdendo sua previsibilidade. Até há pouco tempo, quem mandava uma mensagem de correio eletrônico partia de uma certeza técnica, uma confiança tácita, de que ele chegaria a seu destino ou voltaria ao remetente, como uma carta o faria. Entretanto, aos poucos, muitas mensagens digitais começam a desaparecer sem deixar rastros. O que aconteceu com elas só se pode especular: podem ter sido filtradas, encaminhadas para uma pasta qualquer ou simplesmente se perderam na imensidão das caixas de entrada.

Quem, afinal, nunca usou um filtro de spam como desculpa pela demora em responder a um e-mail?

LULI RADFAHRER

A maioria das mensagens é inútil; quando toda conversa pode ser relevante, praticamente nenhuma o é